Côn. José Everaldo Rodrigues Filho
Homilia na Primeira Missa de Pe. Luciano
Um sacerdote é um cristão, ungido e consagrado, que faz os sacrifícios, realiza os rituais e age como um mediador entre Deus e o homem. Isto significa que ele é responsável por oferecer aquilo para o qual foi divinamente designado por Deus, para executar os diferentes ritos e cerimônias referentes à adoração a Deus, e ser um mediador entre Deus e homem.
Os Levitas no AT foram escolhidos para servir ao Senhor, e eram tomados da tribo de Levi, da qual os sacerdotes eram escolhidos. Eles se originaram de uma família, a de Arão e de seus quatro filhos: Nadabe, Abiú, Eleazar e Itamar. Mas devido à morte de Nadabe e Abiú, a sucessão sacerdotal passou para Eleazar e Itamar, de cuja linhagem vieram os sacerdotes em Israel.
Os seus deveres estavam divididos em funções. (Serviço, Ensino, e Oração): 1) o primeiro era ministrar no santuário, que nesta época era o tabernáculo, mas quando Israel se tornou uma nação povoada foi o templo; 2) Em segundo, os sacerdotes eram responsáveis para ensinar ao povo a lei de Deus; 3) Por fim, quando a nação buscava a Deus, eram os sacerdotes que oravam para pedindo direção.
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Algo da importância do sacerdote na adoração do Antigo Testamento pode ser visto do fato de que no hebraico a palavra para sacerdote 'kohen' ocorre quase 800 vezes. É interessante que o verbo kahan (da mesma raiz de kohen) é usado no Antigo Testamento para descrever o noivo que se enfeita com ornamentos. Os Sacerdotes usavam roupas distintas sempre que eles estavam ministrando no altar ou entravam no Santo Lugar. A roupa deles tinha que estar limpa e pura antes de se aproximar de Deus.
O Velho Testamento nos ajuda a entender a obra de um sumo sacerdote. O sumo sacerdote levita agia como representante dos homens, entrando na presença do Senhor para oferecer sangue em benefício dos homens pecadores. Em nenhum outro lugar esta função é ilustrada mais vividamente do que nos eventos do Dia da Expiação. Neste dia, o décimo dia do sétimo mês de cada ano, o sumo sacerdote entrava no Santo dos Santos do tabernáculo para fazer expiação pelos seus próprios pecados e pelos do povo.
O sumo sacerdote matava o novilho fora do santuário propriamente e levava um pouco de sangue do novilho para dentro do Santo dos Santos, onde aspergia-o sobre o propiciatório. Em frente do propiciatório ele aspergia sangue, com o dedo, sete vezes, para fazer expiação por seus próprios pecados e os de sua família. A nuvem de incenso na sala protegia-o de ver o Senhor e morrer como conseqüência. Ele, então, matava o bode selecionado por sorte para ser a oferenda e levava um pouco de sangue para dentro do Santo dos Santos, mais uma vez espalhando o sangue em cima e na frente do propiciatório, para fazer expiação pelos pecados do povo. Depois, o bode vivo era levado para o deserto e solto, levando embora consigo os pecados do povo. Os corpos do novilho, do bode e de um carneiro oferecido como holocausto eram totalmente queimados.
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Os sacerdotes de Israel eram apenas sombras do nosso Grande Sumo Sacerdote, o Senhor Jesus Cristo. Algumas passagens nos dão uma compreensão da perfeição encontrada no caráter sacerdotal de Cristo:
(1) Cristo como Sacerdote foi designado e escolhido por Deus: Hebreus 5,5 "Assim também Cristo não se glorificou a si mesmo, para se fazer sumo sacerdote, mas aquele que lhe disse: Tu és meu Filho, Hoje te gerei.".
(2) Ele foi consagrado com um juramento
Hebreus 7,20-22 Jurou o Senhor, e não se arrependerá; Tu és sacerdote eternamente, Segundo a ordem de Melquisedeque, de tanto melhor aliança Jesus foi feito fiador."
(3) Ele não tem pecado
Hebreus 7,26 " Porque nos convinha tal sumo sacerdote, santo, inocente, imaculado, separado dos pecadores, e feito mais sublime do que os céus;"
(4) O Seu sacerdócio é inalterável.
Hebreus 7,23-24 " mas este, porque permanece eternamente, tem um sacerdócio perpétuo."
(5) O Seu oferecimento é perfeito e definitivo.
Hebreus 9,25-28 " Cristo, oferecendo-se uma vez para tirar os pecados de muitos, aparecerá segunda vez, sem pecado, aos que o esperam para salvação."
(6) Ele Intercede continuamente
Hebreus 7,25 "Portanto, pode também salvar perfeitamente os que por ele se chegam a Deus, vivendo sempre para interceder por eles."
(7) Ele é o único Mediador
I Timóteo 2,5 "Porque há um só Deus, e um só Mediador entre Deus e os homens, Jesus Cristo homem."
Talvez a mais completa descrição de Jesus com respeito a sua obra redentora seja a de sumo sacerdote.
O livro de Hebreus declara que Jesus também é um sumo sacerdote (Hebreus 2:17; 3:1; 4:14). O escritor de Hebreus afirma que Jesus era sumo sacerdote segundo uma ordem diferente, não segundo a ordem de Arão (ou da tribo de Levi), mas segundo a ordem de Melquisedeque (5:6,10; 6:20).
Mas porque Melquisedeque? Quem foi Melquisedeque? O escritor de Hebreus nota que ele foi tanto sacerdote como rei de Salém (outro nome de Jerusalém; veja Gênesis 14:18-20; Hebreus 7:1). Ele também observa que as escrituras do Velho Testamento dão a Melquisedeque a aparência de ser eterno, não sendo registrado seu nascimento, linhagem ou morte (7:1-3). O autor de Hebreus também observa a conseqüência inevitável do sacerdócio de Jesus Cristo. Se o sacerdócio for mudado da ordem de Arão para a de Melquisedeque, necessariamente a lei associada com o sacerdócio levítico tem que ser mudada. "Pois, quando se muda o sacerdócio, necessariamente há também mudança de lei" (7:12). A Lei de Moisés, associada com o sacerdócio levítico, foi anulada quando o sacerdócio foi mudado (7:18-19).
A obra sacerdotal de Jesus é explicada pelo escritor de Hebreus em termos de atos do sumo sacerdote levita no Dia da Expiação. Exatamente como o sumo sacerdote levita entrava no Santo dos Santos do tabernáculo, isto é, na presença de Deus, com sangue para fazer a expiação pelos pecados, assim Jesus entrou no Santo dos Santos com sangue (9:11-12). Mais ainda, Jesus não ofereceu seu sangue num tabernáculo físico, feito por mãos humanas. Ele ofereceu seu sangue na presença de Deus, no céu.
Em conformidade com o propósito do escritor de Hebreus, Jesus é apresentado como um sumo sacerdote superior aos sacerdotes levitas. Os sumos sacerdotes do Velho Testamento, oferecendo sangue pelos pecados do povo, eram eles mesmos, realmente pecadores (Hebreus 5:1-3; 7:26-27). Antes que o sumo sacerdote pudesse fazer intercessão pelo povo no Dia da Expiação, ele tinha que oferecer um novilho pelos seus próprios pecados. Jesus, contudo, ainda que tentado, era sem pecado (Hebreus 2:18;4:15;7:26). Ainda mais, Jesus não fica impedido pela morte em seu serviço como sumo sacerdote. Os sacerdotes do Velho Testamento, sendo homens, morriam e o serviço de sumo sacerdote era passado ao próximo homem apontado pelo mandamento da Lei de Moisés. Jesus vive para sempre e é assim capaz de continuar com seu serviço sacerdotal tanto tempo quanto for necessário (Hebreus 7:23-25). Até mesmo o local do seu serviço é superior, sendo um tabernáculo celestial em vez de um físico. Jesus pode entrar na presença de Deus sem uma nuvem de incenso para protegê-lo porque ele não tem pecado.
Jesus não se proclama Sacerdote, Jesus se auto proclama Bom Pastor. Quando Jesus anunciou sua missão misericordiosa nesta parábola, cheia de ternura, do Bom Pastor, o Evangelista nos relata que “eles não entenderam do que estava dizendo” (Cf. Jo. 10,6). Seu coração estava cheio de ódio porque não o queiram reconhecer como o Filho de Deus e “Novamente apanharam pedras para apedrejá-lo” (vs.21) e mais adiante, procuravam prendê-lo (vs.39).
Jesus se intitula o Bom Pastor. Bom, ele o era por essência, como Filho de Deus, em quem habita. Em sua plenitude, a Bondade, ensina Santo Gregório, papa. Bom, também e ainda na sua forma, enquanto entregou sua vida pelas ovelhas que lhe foram confiadas pelo Pai. Não só se sacrificou por elas, mas ainda deu-se em alimento e bebida, na eucaristia: “Bom Pastor, entregou sua vida pela suas ovelhas para que, em sacramento para nós, vertesse seu corpo e sangue e saciasse as ovelhas que remira com o alimento de sua carne”.
Jesus ensina que a ovelhas conhecem a voz do Pastor e o seguem. Não reconhecem o mercenário, que não é pastor e a quem não interessa as ovelhas senão o ganho da jornada. Ele deixa vir o lobo que rouba rezes e devasta o rebanho. As ovelhas do redil de Cristo e ainda as de outro redil que vieram se juntar, os gentios que estavam longe da Aliança, reconhecem a voz do Pastor pela fé e pelo amor e o seguem aonde Ele as leva porque lhe foram dadas pelo Pai.
Jesus é a Porta pela qual se entra no redil. Quem não entra por esta Porta é assaltante e ladrão. O único caminho que nos conduz à segurança do aprisco e às pastagens eternas é o Filho de Deus: “Eu sou a Porta: se alguém entra por mim será salvo, poderá entrar e sair e achará pastagens” pois “Eu vim para que todos tenham vida e a tenham em abundância” (Cf. Jo.10,9-10).
A continuidade do rebanho de Deus na terra, a Igreja, foi confiada a eles e a seus sucessores: Bispos e presbíteros. Aos que foram chamados para esta missão devem conformar sua vida com a vida de Cristo e estender sua dedicação, seu amor, a sua misericórdia ao povo de Deus. E, seguindo a mesma lição de São Gregório, já citado, estar dispostos a oferecer sua vida por aqueles que lhe foram confiados. São Pedro recomenda aos presbíteros: “Apascentai o rebanho de Deus que vos é confiado, cuidando dele, não contra a vontade, mas de bom grado como Deus quer...mas tornando-vos modelo para o rebanho (Cf. 2Ped, 5,2).
Todo o presbítero deve ter consciência que é sacerdote a semelhança de Jesus Cristo, oferecer a Deus sacrifícios expiatórios para o bem do Povo e acima de tudo é o Pastor que dá a vida por seu Povo, o Rebanho de Cristo confiado a ele, por isso todo presbítero deve estar em profunda comunhão com seu Rebanho. Deve protegê-los contra os perigos: lobos e ladrões sempre querem massacrar e dispersar o Rebanho, por isso o Bom Pastor ensina a verdade e o Rebanho reconhecerá a voz de seu Pastor. Deve alimentá-las, com o alimento sagrado dos sacramentos, deve curar suas feridas.
O presbítero Bom Pastor com sua missão injeta sangue novo à Igreja pelo Batismo, cura-a pela penitência, conforta-a pela unção, alimenta-a pela Eucaristia, consagra-a pelo matrimônio. O presbítero deve ser Pai, acolhendo a todos com amor, enxugando as lacrimas dos desesperados e enchendo-os de esperança. Deve construir a Igreja com a Palavra e o testemunho de Vida.
Eis o quilate do bom Pastor. Ele conhece cada ovelha sua pelo nome e elas conhecem a generosidade e grandeza do seu coração, sua fidelidade e respeito pelas diferenças de cada ovelha. Ele nada lhes impõe, mas dá motivos para optarem pelos valores do Reino de Deus e por serem felizes na Casa do Pai. Deu-lhes, não um curral, mas a aconchegante Casa do Pai, onde filhos e filhos vivem em segurança, sem lágrimas, fome ou dor. Para ele, somos mais que ovelhas: somos filhos amados do Pai e irmãos de Jesus, com direito a chamar de Pai o Pai de Jesus. Isso nos foi conquistado pelo sacrifício do Cordeiro de Deus, o Pastor das nossas vidas, a Luz que ilumina nosso caminho nas trevas do mundo, "Aquele que nos ama, e que nos lavou dos nossos pecados com seu sangue e fez de nós uma Realeza e um Sacerdócio para Deus, seu Pai.
Lembra-te padre Luciano das duras palavras do Senhor na profecia de Ezequiel, que é uma advertência tanto para mim como para ti:
“Ai dos pastores de Israel que só cuidam do seu próprio pasto. Não é seu rebanho que devem pastorear os pastores? Vós bebeis o leite, vestis-vos de lã, matais as reses mais gordas e sacrificais, tudo isso sem nutrir o rebanho. Vós não fortaleceis as ovelhas fracas; a doente, não a tratais; a ferida, não a curais; a transviada, não a reconduzis; a perdida, não a procurais; a todas tratais com violência e dureza. Assim, por falta de pastor, dispersaram-se minhas ovelhas, e em sua dispersão foram expostas a tornarem-se presa de todas as feras. Minhas ovelhas vagueiam em toda parte sobre a montanha e sobre as colinas, elas se acham espalhadas sobre toda a superfície da terra, sem que ninguém cuide delas ou se ponha a procurá-las. Pois bem, pastores, escutai a palavra do Senhor: por minha vida - oráculo do Senhor Javé -, já que por falta de pastor foram minhas ovelhas entregues à pilhagem, e serviram de pasto às feras, pois os meus pastores não têm o mínimo cuidado com elas, e que, em vez de pastoreá-las, só têm procurado se fartar eles próprios, por isso, escutai, pastores, o que diz o Senhor: Eis o que diz o Senhor Javé: vou castigar esses pastores, vou reclamar deles as minhas ovelhas, vou tirar deles a guarda do rebanho, de modo que não mais possam fartar a si mesmos; arrancarei minhas ovelhas da sua goela, de modo que não mais poderá devorá-las. Pois eis o que diz o Senhor Javé: vou tomar eu próprio o cuidado com minhas ovelhas, velarei sobre elas”.